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Estamos a criar uma geração com menos literacia do corpo?

O analfabetismo motor nas crianças

O Professor Carlos Neto, docente aposentado e jubilado da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa e referência nacional no brincar, no jogo e no desenvolvimento motor infantil, descreve um fenómeno
cada vez mais frequente:

Crianças fisicamente saudáveis que, ainda assim, revelam fragilidades motoras básicas no seu quotidiano.

O que é?

O analfabetismo motor não é um rótulo para culpar crianças.

É uma realidade prática onde o corpo não está a ser “aprendido” no ritmo natural da infância, onde faltam experiências variadas de movimento, como a postura, equilíbrio, manipulação de objetos, coordenação fina, que acabam por se revelar nas tarefas do
dia-a-dia e na aprendizagem escolar.

Na prática, o analfabetismo motor está presente em crianças:

🏃‍♂️Que não sabem correr bem ou tropeçam com facilidade

🤸🏿‍♀️Que evitam saltar, trepar, pendurar-se, equilibrar-se

💪🏿 Que têm pouca confiança no próprio corpo

🤏 Que tem dificuldade em gestos de autonomia (vestir casacos, dar nós, atar atacadores) e em tarefas que exigem controlo fino

⏳Que se cansam e desistem depressa

Getty Images/iStockphoto, 2020

Tal como no analfabetismo da leitura, aqui também há uma base simples: não se aprende aquilo que não se pratica. O corpo precisa de chão, altura, velocidade, obstáculos, quedas pequenas e recomeços.

Pé Descalço, 2025

Pé Descalço, 2025

Como chegamos até aqui?

O que mudou não foi a biologia das crianças, foi o mundo à volta delas.
Nas últimas décadas, juntaram-se vários constrangimentos que empurraram a infância para dentro de casa e para rotinas cada vez mais controladas:

🚧Urbanização e menos espaço livre acessível

🚦Trânsito e medo de circular a pé

🛡️Excesso de proteção, muitas vezes bem-intencionada (para não se magoarem, sujarem, se constiparem e estarem seguros)

🌳Menos contacto com natureza 

📱Dependência de ecrãs e entretenimento sedentário

Há ainda uma consequência silenciosa: quando o corpo não é usado, a criança começa a acreditar que não é capaz.

O resultado?

Menos oportunidades para experimentar, errar, ajustar e repetir, que é, no fundo, como o corpo aprende.

Pé Descalço, 2025

Sem risco não há segurança

Parece contraditório, mas:
Uma criança que nunca sobe a um muro baixo, não aprende a avaliar alturas.
Uma criança que nunca corre com liberdade, não aprende a controlar a velocidade e a travagem.
Uma criança que nunca cai (em quedas pequenas, normais), não aprende a reagir,
proteger-se, levantar-se e voltar a tentar.

A segurança real não nasce do “não faças”. Nasce do “aprendo a fazer com consciência, em ambientes adequados e com supervisão”.

A experiência de “alfabetização” do corpo começa aqui!

Pé Descalço, 2025

Se o problema é uma infância cada vez mais “entre paredes”, então faz sentido procurar lugares onde o corpo volte a ser protagonista, com natureza, variedade, desafio e liberdade.

Pé descalço Eco Parque pode entrar como parte da solução: um espaço pensado para sentir o mundo por baixo dos pés, explorar texturas e obstáculos naturais, recuperar equilíbrio, coordenação e, sobretudo, voltar a brincar sem manual de instruções.

Pé Descalço, 2025

Pé Descalço, 2025

Pé Descalço, 2025

Talvez a pergunta “estão as nossas crianças a sofrer de analfabetismo motor?”
tenha uma resposta desconfortável: sim, muitas estão, mas esta situação é reversível.

É necessário:
👍🏿Aceitar pequenos riscos
🤲🏿Oferecer tempo, rua, chão e natureza
👉🏿Dar mais jogo, mais vida

Porque uma criança que aprende a cair e a levantar-se, está também a aprender a fazer o mesmo na vida. As crianças não precisam de uma infância perfeita. Precisam de uma infância vivida.

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