Diz-se, frequentemente, que o saber não ocupa lugar, mas a verdade é que o cérebro também precisa de arrumar a casa. A aprendizagem não acontece apenas enquanto lemos, contamos ou exercitamos. Acontece também, e em grande parte, quando fechamos os olhos. Este ato, que deveria ser o mais natural do mundo, tornou-se um desafio difícil de conquistar, boicotado pelo brilho dos ecrãs e das luzes artificiais que insistem em prolongar os nossos dias contra a nossa própria natureza.
Dormir não é tempo perdido
Muitas vezes olhamos para o sono como uma pausa passiva ou, pior, como “tempo perdido”. A ciência diz-nos o contrário. O sono é o verdadeiro “sistema operativo” do ser humano. É durante a noite que o cérebro faz uma espécie de manutenção essencial:
🧹Uma “limpeza do lixo tóxico” acumulado ao longo do dia
🗂️Uma arrumação da informação, para evitar a sobrecarga da memória
🧠 A fixação das experiências e aprendizagens vividas
Sem esta arrumação geral noturna, a memória sobrecarrega-se e aquilo que vivemos durante o dia, simplesmente, não se fixa.
FreePik, 2021
Aprender primeiro, dormir depois
A relação entre o sono e a educação é profunda e a regra de ouro é clara: aprende primeiro, dorme depois.
Enquanto dormimos, o cérebro não descansa: está a trabalhar arduamente para consolidar memórias. As novas conexões neurais que fizemos durante o dia, como, por exemplo, aprender a identificar uma árvore ou a superar um desafio de equilíbrio, são reforçadas no silêncio da noite.
O Dr. Pedro Cabral, neurologista pediátrico, alerta para um problema crítico: muitos casos de défice de atenção nas crianças não revelam uma falta de compreensão, mas sim uma incapacidade de “arrumar” a informação.
Quando o sono falha:
📉A passagem da memória de curto prazo para longo prazo quebra-se
❌Surge o cenário “chegam ao teste e não sabem” porque o cérebro não organizou o aprendido
O impacto na aprendizagem e na vida
Um estudo publicado na revista científica Science of Learning, demonstra que a duração, a qualidade e a consistência do sono são os pilares do sucesso escolar.
A privação do sono ataca a plasticidade sináptica, isto é, a capacidade mágica do cérebro de se moldar e aprender coisas novas.
Pexels, 2020
Vamos fazer o básico bem feito?
No Pé Descalço, acreditamos na agitação dos corpos e no contacto direto com a natureza, porque sabemos que o movimento é o interruptor que liga a qualidade desse descanso.
Uma criança que corre ao ar livre e gasta energia de forma saudável terá, naturalmente, um sono mais profundo e reparador.
Pé Descalço, 2025
Antes de procurarmos metodologias de ensino-aprendizagem complexas, precisamos de voltar ao básico: dormir bem. Se queremos crianças criativas, resilientes e capazes, temos de proteger o seu tempo de sono com o mesmo vigor com que protegemos a sua segurança.
Da próxima vez que nos visitar, lembre-se: a alegria da descoberta de hoje só será verdadeiramente integrada amanhã. Vamos deixar o cérebro fazer o seu “reset” hoje?
- by Valentina Raimundo
- on 19 de Fevereiro, 2026
